Doce Afonso
Por Renata Alves


Sempre íamos ao bar Sophia, em Goiânia.
Como era bom escutar aquelas modas apaixonadas com minhas irmãs e amigas.
Sempre saíamos em turma e, detalhe, todas lindas, sem modéstia.
Em uma dessas noites fui abordada por um homem lindo e extremamente gentil.
Seu nome era Afonso.
Dançamos e, depois de muita conversa, nos beijamos.
Lembro que foi um beijo sem pressa, com desejo e muito carinho.
E, naquele instante, percebi que ele também sentiu.
A gente sabe quando o outro sente o mesmo que nós.
Durante a conversa descobri que ele morava no interior de São Paulo.
Confesso que, ao ouvir isso, meu coração ficou em alerta.
Ele estava em Goiânia apenas de passagem.
Seu destino final era Aruanã, onde todos os anos ia pescar com os amigos.
Tivemos sorte. Nosso encontro aconteceu na ida.
Isso significava que ainda nos encontraríamos mais uma vez, na volta.
Depois de trocarmos telefones e e-mails, começou a troca mais intensa, inteira e genuína que já vivi.
Vieram as ligações. Os torpedos. E, principalmente, os e-mails. Muitos e-mails.
A cada mensagem, nossa conexão aumentava.
Criamos até uma forma particular de nos chamar.
Ele era o Doce Afonso.
Eu era a Deusa Rê.
Falávamos sobre tudo: sentimentos, trabalho, medos, sonhos e pequenas coisas do cotidiano.
Ali existia o começo de algo que eu jamais havia sentido.
E, claro, tínhamos uma trilha sonora.
Havia uma música da banda Nashville que parecia ter sido escrita para nós.
Até hoje me lembro de um trecho: 🎼"Era só pra ficar, a gente foi ficando / E acabou se apaixonando de uma vez..."🎼
Foram anos nos encontrando apenas uma vez por ano, durante suas viagens de pesca.
Até que, em uma dessas visitas, ele me abraçou demoradamente e perguntou: — Por que você apareceu só agora na minha vida?
Sorri e respondi que não importava a demora. Eu havia chegado.
Então ele me olhou nos olhos e disse, quase sussurrando: — Eu namoro há anos. Meu casamento já está marcado.
Naquele instante, alguma coisa dentro de mim desabou.
Continuamos abraçados. No silêncio daquele abraço, chorei.
Não apenas pela notícia, mas porque, pela primeira vez, entendi que algumas histórias de amor chegam tarde demais.
Mesmo assim, seguimos.
Ele decidiu ficar mais um dia na cidade e marcamos uma despedida.
Só nós dois.
Depois de tanto tempo de cumplicidade, eu queria guardar aquela última lembrança da forma mais bonita possível.
Ele nunca soube, mas algumas lágrimas caíram naquela noite.
Lembro que ficou preocupado, imaginando que eu não havia gostado de estar ali.
Mal sabia ele que eu apenas tentava aceitar que aquela seria nossa última vez.
Eu amava tanto aquele homem que decorei cada parte do seu rosto para jamais esquecer o quanto era bonito e, principalmente, o quanto me fez sentir.
Anos depois, pelas redes sociais, encontrei seu perfil.
Vi seu casamento. Vi seus filhos. E sorri.
Tudo havia seguido exatamente como precisava seguir.
Às vezes, ainda relembro nossa história quando vejo a pulseira que ele me deu e que guardo até hoje.
Obrigada, Doce Afonso. Por cada conversa. Por cada música. Por cada abraço.
Você me ensinou que alguns amores não foram feitos para ser vividos em sua plenitude.
Foram feitos apenas para permanecer na memória.
Por Renata Alves


