O sangrar me salvou
Por Renata Alves


“Não se escreve porque se tem algo a dizer, mas porque se tem algo a sangrar.” — Emil Cioran.
E o início da minha escrita começou por aí.
Em uma das minhas sessões, meu terapeuta me perguntou o que eu fazia para me acalmar quando o desespero de existir sem meu filho batia à porta.
Eu não soube responder.
Naquele momento, entremeada na dor da separação e do recomeço, eu só queria parar de sentir angústia.
E, em um dos vídeos do YouTube — obrigada, algoritmo! — fui apresentada a Cioran. Ele não está presente no conteúdo do meu curso de Filosofia, o que é uma pena.
Essa frase me chamou a atenção porque eu estava sangrando, mas não tinha um lugar para onde esse sangue vazasse. Daí, tentei.
Tirei o curativo e comecei...
Meus primeiros textos, que estão guardados, eram apenas o escoar desse sangue.
Tristes, melancólicos e totalmente exaustivos emocionalmente...
Mas ali era eu. Sem performar, sem falar bonito, sem citações. Era eu e o meu sangrar.
Agora, depois de tanto tempo, reli aqueles textos e confesso que fiquei orgulhosa de tamanha evolução.
Percebi que tinha conseguido canalizar aquela dor para algo bom e significativo.
Uma coisa levou a outra.
Enquanto lia, me lembrei do livro que estou lendo atualmente, Antifrágil, de Nassim Nicholas Taleb, e da ideia de que podemos transformar aquilo que nos machuca em algo que nos impulsione.
Eu fiz isso com a minha escrita.
Hoje escrevo porque gosto, mas antes era por sobrevivência.
Quando a hemorragia parou, percebi que começava a contar minhas histórias sem dor. Passei a escrever com alegria sobre o que vivi, sobre o meu ponto de vista diante da vida e das situações.
A escrita já não era apenas o lugar onde eu despejava aquilo que doía.
Ela havia se tornado também um lugar de descoberta.
Foi aí que percebi que alguma coisa daquela dor havia se transformado em outra coisa.
Ainda existe um título que ecoa em mim, mas para o qual ainda não me sinto pronta para escrever.
É sobre meu filho.
E aprendi a ser cuidadosa comigo.
Não posso cutucar uma ferida só porque ela daria uma boa história.
Existem dores que ainda precisam de tempo antes de virarem palavras.
Não estou pronta para abri-las e depois ter que fazer o sangramento parar.
Hoje escrevo para vocês, leitores invisíveis, para que, de alguma forma, você leia algum dos meus textos e pense: “Me identifiquei com isso” ou “Nunca pensei dessa forma”.
A intenção deles, hoje, é trazer alívio, uma nova visão sobre alguma situação ou até um sorriso para quem lê.
Minhas inspirações começaram para aliviar a minha dor.
Depois, senti necessidade de escrever para dizer ao mundo: eu sangrei e sobrevivi.
Talvez você também possa encontrar uma maneira de transformar aquilo que hoje dói em alguma coisa que te faça continuar.
Porque hoje, quando paro e escrevo cada um dos meus textos, penso que posso diminuir o sangrar de alguém.
Ainda sangro.
A vida é complexa demais para pensarmos que alguns machucados vão cicatrizar por completo.
Mas talvez possamos aprender a conviver com eles, com ou sem grandes curativos.
O escrever pode nos levar além das nossas sensações e percepções.
Escreva.
