Uma chance à aleatoriedade
Por Renata Alves


Aleatoriedade significa a qualidade daquilo que acontece por acaso, de maneira imprevisível, sem seguir regras fixas ou um padrão que possamos reconhecer.
Agora que o Aurélio nos explicou de forma objetiva, vamos falar sobre isso.
Outro dia, depois de terminar minhas unhas, minha amiga Rayssa me pediu para tirar uma foto para postarmos. Eu topei.
E ali, por alguns segundos, percebi minhas mãos.
Olhei para elas e me dei conta de que o tempo está passando.
Não que envelhecer me assuste ou entristeça.
É algo mais profundo do que isso.
Lembrei-me de um senhor que conheci em Catalão.
Ele era surdo, mudo e muito idoso.
Também era muito solitário.
Não sei explicar exatamente o que aquele homem despertou em mim, mas me lembro de ter feito um pedido a Deus: que não me deixasse viver sozinha daquele jeito.
Talvez tenha sido por isso que, ao olhar para minhas mãos, algumas perguntas tenham surgido.
Será que já vivi tudo o que estava ao meu alcance?
Será que, por amar tanto a minha vida de rotina definida, deixei de viver coisas que poderiam ter sido boas?
Lembrei-me de uma frase do meu amigo Rafa:
“Renata, sempre que te chamarem para alguma coisa, vá. Diga sim para a vida.”
E me dei conta de que, por tantas vezes, eu disse não.
Sempre recebi convites para bares, resenhas e encontros.
Muitas vezes, inventava uma desculpa para ficar comigo mesma. Não necessariamente porque não gostava das pessoas ou porque não desejava estar com elas, mas porque a minha própria companhia parecia ser suficiente.
Em uma entrevista, Marília Gabriela disse algo que ficou na minha cabeça: “Foi minha escolha. Eu disse não ao mundo para estar sozinha.”
Será que fiz o mesmo?
Será que, em algum momento, escolhi tanto a minha própria companhia que deixei de dar ao mundo a chance de me surpreender?
Não tenho uma resposta definitiva.
Hoje, posso pouco com a aleatoriedade.
Trabalho, moro em uma cidade pequena e tenho uma rotina organizada pelas minhas responsabilidades e pelas condições da vida que levo.
Sou grata pelo trabalho que tenho hoje.
Ele faz parte da vida que construí e me permite seguir o meu caminho.
Mas existe em mim um desejo de trabalhar com aquilo que venho estudando e amando: a Filosofia.
Tenho vontade de lecionar, de estar em uma sala de aula, de transformar em trabalho algo que hoje também transforma a maneira como enxergo a vida.
Acredito que, de forma indireta, isso já acontece. Tenho trazido a Filosofia para os meus textos e compartilhado essas reflexões com vocês.
E, morando no interior, nem sempre encontro as oportunidades que gostaria.
Talvez seja por isso que penso tanto nos giros.
Será que minhas mãos estão cansadas de esperar por um 360º, quando o giro possível, hoje, é de 180º?
Eu tenho tentado.
Mudei a rota de ida e volta ao trabalho. Tenho variado de supermercado — e quem me conhece sabe o quanto amo um — e almoçado em restaurantes diferentes. Aqui, temos três opções.
Pequenas mudanças.
Às vezes, fico pensando se elas são suficientes.
Ou se estou apenas tentando me sentir melhor diante de uma vida que ainda não se transformou como desejo.
Talvez eu esteja esbarrando, sem perceber, em uma velha questão dos estoicos: existem coisas que dependem de nós e outras que não dependem.
O acaso, definitivamente, não me pertence.
Não posso controlar o que acontece, quem chega, quem fica, as oportunidades que aparecem ou o momento em que elas aparecem.
Mas posso escolher o que faço com aquilo que está ao meu alcance.
Tenho pensado que talvez seja isso que eu esteja tentando fazer quando mudo um caminho, escolho outro supermercado ou aceito experimentar um lugar diferente para almoçar.
Não sei se é suficiente.
E talvez exista outra coisa que minhas mãos estejam tentando me dizer.
Tenho medo de que o tempo passe e eu não viva um amor calmo, recíproco e duradouro.
De que algumas experiências que desejo continuem apenas no campo das possibilidades.
Não sei se isso é medo, urgência ou simplesmente a consciência de que a vida é finita.
Talvez seja tudo isso.
Ainda não sei, leitores invisíveis.
Mas tenho percebido que não é muito saudável permanecer procurando respostas para tudo aquilo que não posso controlar.
Não posso controlar o acaso.
Não posso garantir que o amor chegará, que encontrarei a oportunidade profissional que desejo ou que a vida seguirá o roteiro que imaginei.
Mas posso, dentro das minhas possibilidades, deixar algumas portas abertas.
Posso aceitar um convite sem inventar uma desculpa.
Posso experimentar um caminho diferente.
Posso permitir que uma conversa inesperada me encontre.
Talvez dar uma chance à aleatoriedade não seja abandonar a rotina ou esperar que a vida se transforme de uma hora para outra.
Talvez seja apenas não fechar todas as portas antes que alguém bata.
Minhas mãos me lembram que o tempo está passando.
E, se existe alguma urgência, talvez seja a de não passar a vida inteira esperando o momento perfeito para começar a vivê-la de outra maneira.
Ainda estou aprendendo.


