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O Sr. Benigno

Por Renata Alves

Renata
Renata
Publicado em 08 de agosto de 2026 Atualizado em 08 de agosto de 2026
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Amanheceu.

Levanto e vou direto para a cozinha.

Lá está ele.

Meu pai, com o seu inseparável jornal O Popular de todo santo dia, seu café e seu cigarro.

Começo a conversa. — Benção, pai.

— Deus te abençoe, minha filha. Dormiu bem?

— Dormi, sim. Respondo enquanto me junto a ele na mesa.

Ele pergunta: — Filha, você viu o valor do prêmio da Mega-Sena?

Respondo que não.

Então ele pega um papel, um lápis e começa a fazer contas.

Anoto o valor e começamos a sonhar.

Primeiro eu: — Pai, quero continuar morando com você e minha mãe. Não quero ser tão independente assim. Gosto e me sinto protegida com vocês.

Sabiamente ele responde: — Vamos fazer assim: o pai compra um terreno bem grande e construímos as casas sua e dos seus irmãos, uma ao lado da outra. Tudo bem? É importante, filha, que você tenha o seu espaço.

— Tá bem, então. Quero uma SUV, pai.

Adoro carros grandes. Ele sorri.

— Minha filha, precisa ter um carro seguro. É para você e o Ian.

Então precisa ser um Corolla. Segurança, alta tecnologia e muitos outros adjetivos.

— Tá bem. Concordo.

Olho novamente para ele.

— Pai... agora que já gastamos um pouco do prêmio, podemos falar sobre outros assuntos que preciso entender?

— Claro, minha filha. Conta para o pai.

Respiro fundo.

— Pai... eu não entendo o motivo do Ian ter escolhido morar com o pai. A maneira como tudo aconteceu foi tão, tão dolorosa para mim.

Me ajuda a entender.

Ele fica em silêncio por alguns segundos.

Depois responde com a calma que sempre teve.

— Minha filha... tem coisas que a gente só entende depois que a vida passa.

Achei que o tempo já tivesse te mostrado isso. Mas eu te digo.

Tudo foi necessário para que você florescesse como mulher, como filha e, agora, como escritora.

Foi um processo.

Lembra do livro que você está lendo?

Ostra feliz não faz pérola.

Você estava escondida de você mesma pela maternidade.

E não foi só você que floresceu.

Seu filho floresceu.

Sua mãe floresceu.

Como você acha que ela se sente sendo cuidada e tão amada por você, pertinho dela?

Olho para ele e faço um pedido.

— Pai... pode me dizer mais uma vez que eu sou especial e forte?

Ele sorri daquele jeito que só ele sabia sorrir.

— Você sabe que sim.

Mas eu digo outra vez.

Você, minha filha, com toda essa intensidade e esse coração chorão, é uma das pessoas mais fortes que conheço.

Sempre foi.

E sempre será.

E sobre o amor que você espera...

Eu sempre te disse que Deus está preparando alguém muito especial.

Não pode ser qualquer um para a minha Renata.

Depois ele segura minha mão.

— Minha filha, por mais distante que eu esteja, sempre estarei com vocês.

Vocês quatro são a melhor parte de mim.

E sua mãe...

Sua mãe sempre será a minha Vera.

Ficamos em silêncio.

Então ele quebra o silêncio.

— Está chegando o aniversário da minha primogênita. Vou pedir uma coisa.

Mas não sinta ciúmes, tá?

Dou uma risada.

— Prometo, pai. Pode dizer.

— Diga a ela que sinto muito orgulho.

No dia mais triste das nossas vidas, ela fez o papel da irmã mais velha com uma força que nunca vou esquecer.

Organizou os papéis.

Escolheu minhas roupas.

E acolheu você de um jeito que só uma irmã mais velha conseguiria.

Diga que eu a amo.

E que ainda me emociono quando lembro da forma como ela enfrentou aquele dia.

Foi um dos gestos mais bonitos que já vi.

Colocar a própria dor no bolso para fazer tudo o que precisava ser feito.

Não esqueça de dar o recado certinho, tá?

Levanto.

Dou nele um abraço demorado.

Desses que misturam lágrimas, saudade e aquele cheiro que só o meu pai tinha.

E, como acontece todas as manhãs desde que ele partiu, saio da cozinha levando comigo a certeza de que algumas conversas nunca acabam. Com todo meu amor,

A caçulinha

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