O voltar pra casa da mãe
Por Renata Alves


Desde que mudei pra longe, sempre ligava pra ela e dizia coisas banais do tipo:
“Tá tudo bem por aqui, mãe. Não se preocupa… Bjo, te amo!”
E terminava a ligação.
Sempre banquei meus problemas e não dividia com ela minhas angústias, meus perrengues financeiros, meus medos e a saudade que sentia dela.
Quando morei em Catalão, tive que aprender a fazer dos meus amigos minha família. Sobraram tão poucos, inclusive os melhores.
Quando meu filho decidiu morar com o pai, essa história já se desenrolava há dias. Ela não sabia de absolutamente nada. Até que, em uma noite, ao chegar em casa, liguei pra ela.
“Mãe, benção. Só quero que me escute e não diga nada agora, pode ser?”
Ela respondeu, assustada:
“Tá bom, Rê. O que aconteceu?”
Desabei.
Um choro intenso. Os segundos mais doloridos da minha vida.
Depois de me ouvir, veio a frase que nunca mais vou esquecer:
“Arruma suas coisas, minha filha. Deixa a mãe cuidar de você. Tá na hora!”
E assim se fez.
Arrumei minha mudança e vim.
Quando chegamos com o caminhão na porta de casa, caiu uma chuva. Uma senhora chuva.
Acho que foi um carinho, uma confirmação de que minha vida estava, sim, sendo guiada.
Meu quarto estava pronto. Cama arrumada, guarda-roupa novinho, que ela também me deu.
Nos primeiros dias, dormi com ela. Por vários dias.
E esse processo foi tão curativo que me alegro em relembrar.
Os primeiros dias foram difíceis, insuportáveis… Terapia, excesso de sono, tristeza profunda — e ela ali, firme e presente.
Eu acordava e tinha pão fresquinho.
No almoço, meu prato favorito.
E por ela eu não desisti.
Por ela, hoje estou aqui.
Me redescobrindo, me sentindo amada e cuidada.
É engraçado porque, depois de adultos, esquecemos de como ser filhos.
E posso dizer, leitores invisíveis: é maravilhoso ser cuidada, amada e curada por ela diariamente.
Obrigada por tanto de todos os dias, Verinha.
É bom voltar pra casa que é seu colo.

