Mininzos, vai duimi
Por Renata Alves


Começo esse texto, até então sem título.
Porque tenho aprendido que, quando algo me inquieta, preciso logo escrever.
Hoje me recordei da minha infância.
Naquela época não existia WhatsApp. Tinha telefone, mas não era todo mundo que tinha acesso.
Minha família sempre foi muito grande. De vez em quando, nos reuníamos para fazer pamonha.
Eu e meus primos pegávamos nossas bicicletas e saíamos avisando os tios sobre a data marcada.
Leitores invisíveis, que lembrança feliz e nostálgica tive nesse momento.
Data marcada, saíamos juntos.
Era uma excursão de tios, primos, colchões e afins.
Uma verdadeira farofa de roça — e não de praia.
Começados os serviços do dia, alguns adultos cuidavam do almoço, outros da pamonha e os corajosos cuidavam das crianças.
Geralmente, esse papel era da prima Silvânia.
Brava que só.
Mas de um coração amoroso que só ela poderia ter.
Chegávamos no corgo — porque sim, goianos dizem corgo e não córrego — e era um pampeiro.
Entrava todo mundo para brincar. Ficávamos horas lá e, como não queríamos ir embora, a Silvânia sempre contava uma história sobre cobra ou monstro que aparecia através das árvores e acabava com a nossa alegria.
Chegávamos exaustos e íamos comer a bendita pamonha.
E ela, quente, feita com tantas risadas e histórias, tinha outro sabor.
A noite era mais divertida.
Quando íamos dormir, espalhavam-se colchões por toda a casa.
As crianças juntas.
Daí já viu.
O Flaviano, meu primo mais divertido e alegre, sempre vinha com a lanterna na janela para nos assustar e dizer que o monstro do corgo tinha chegado para nos buscar.
O Fabiano, meu primo branquinho de olhos claros, ficava vermelho de tanto rir.
Minha tia Eliziária sempre soltava o que virou meme eterno para a gente:
— Mininzos, vai duimi! Lidiones vai lá dá um jeito nesses mininzos!
E a gente ria ainda mais.
Hoje, depois de ter sorrido tanto ao lembrar daqueles dias festivos, percebo que os dois primos de quem me lembrei com tanto amor e alegria se foram.
Imagino que estejam aprontando algumas lá em cima.
E talvez seja justamente isso que mais me fez pensar.
A tecnologia facilitou tanto a nossa vida.
Hoje, com um clique, você compra uma pamonha e ela chega à porta da sua casa.
Não precisa marcar a data.
Não precisa pegar a bicicleta.
Não precisa passar na casa dos tios.
Não precisa reunir colchões.
Não precisa passar o dia inteiro no corgo.
Não precisa nem conhecer o caminho.
Mas talvez algumas coisas tenham outro sabor quando exigem que a gente vá até elas.
A pamonha ainda é pamonha.
Mas aquela tinha o gosto das bicicletas, das risadas, dos primos, dos tios, dos colchões espalhados pela casa e das histórias de monstros que nunca existiram.
Hoje, pensando nisso, sinto saudade de um tempo em que, para avisar que haveria pamonha, eu precisava pegar minha bicicleta e ir até o outro.
E talvez seja disso que eu esteja sentindo falta.
Não da pamonha.
Do caminho até ela.

